domingo, 23 de agosto de 2015

Josefa


 Josefa poderia ser pintora de naturezas-mortas ou de retábulos onde pairam anjinhos, mas preferiu atormentar a crítica que teimava não lhe dar sossego. Tanta intriga fez e foi de tal forma levada a sério, que será recordada a bruxa mais malvada das artes decorativas. Pintar ou tingir dá quase no mesmo, importante é fazer da intriga um modo de vida. Depois disso basta pintar com as cores desejadas e deixar que se espalhem numa amálgama de cores.
 
Desafio RS 28 - Josefa bruxa e intriguista
publicado em: historiasem77palavras.blogspot.pt
 
 

Valdevez


A cada vez que eleva o vozeirão, quase volatiliza a avestruz que se passeia sob o azevinho, voraz com a azevia do almoço. O dia é quente, capaz de vulcanizar o azeviche que cobre a calçada, e na avareza do tempo poucos são os que avalizam a suavidade da voz, como um dom a proteger. Talvez um dia o Valdevez deixe de verbalizar a viuvez e compreenda a importância do verniz, quanto mais não seja, nas unhas!

Desafio 96 - Escrever uma história com 77 palavras usando as mais possíveis com a letra V e Z
publicado no blogue: históriasem77palavras.blogspot.pt
 

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A Mulher Feliz

Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na...
e os ventos empurraram-na. Está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.

É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!
Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais íntima distância.

António Ramos Rosa, Poesia Completa

@Maça de junho

Foto de Nos Trilhos Do Infinito.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca...
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira
e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se
a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, in A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS

Foto de Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Miguel Torga - Aniversário

ANIVERSÁRIO
Mãe:
Que visita tão pura me fizeste
Neste dia!...
Era a tua memória que sorria
Sobre o meu berço.
Nu e pequeno como me deixaste,
Ia chorar de medo e de abandono.
Então vieste, e outra vez cantaste,
Até que veio o sono.

Diário IV

12 de Agosto de 1907-17 de Janeiro de 1995

 

domingo, 9 de agosto de 2015

Happy day

Muitas vezes é para ti que escrevo. Mesmo sabendo que não vens ler o que te digo. Muitas vezes nem escrevo, penso apenas. Mas depois quando conversamos, seja por uns minutos ou por várias horas, abordamos os mais variados assuntos que nos prendem, que nos trazem sob pressão, que temos sob a nossa responsabilidade e raramente falamos de nós. Do que pensamos sobre nós. Porque sobre nós já sabemos praticamente tudo. Há uma frase tua, quando do teu internamento, que me mandaste para me sossegar e essa frase diz tudo: "Eu sei bem o que sentes e o que pensas". E sabes. Eu também sei o que pensas, e o que sentes, mas mesmo assim preciso conversar contigo muitas vezes no meu silêncio interior. Perguntar-te sobre a escolha que fiz de roupa, sobre um filme, sobre uma música, sobre o trabalho, sobre as preocupações, sobre os meus devaneios, sobre as incertezas e dúvidas. Sobre as opções e não opções. Assim como agora, queria perguntar-te sobre as férias. Mas não o vou fazer. O que decidir, sei que tem o teu apoio incondicional. A tua racionalidade não colide com o teu prazer de me sentir bem, de fazer coisas interessantes, de ser eu e a minha cabeça a decidir e a por no caminho a minha vida. Por isso gosto tanto de te sentir próximo, de poder reiterar em palavras aquilo que os teus sentidos libertam. Como é bom ouvir a tua voz, seja ao adormecer ou ao acordar e saber de antemão como correu o dia, ou como vai correr, se ela vem com ansiedade ou com cansaço, com exasperação ou com meiguice, e poder deleitar-me nela, mais uma vez. Mas agora não quero o teu olhar preocupado. Vou ouvir o Caetano.

@Maça de junho
https://youtu.be/wAmtLN4PlLU






 

sábado, 8 de agosto de 2015

Um vida de turbulência

Na tropa foi sempre o primeiro do batalhão. Por mais atribulado o dia. E assim aprendeu que a batalha é ganha pela libertação dos sentidos. Mais uma bagatela para colocar na tabuleta que o prende à vida. Analfabeto é que não. A velhice chegou e com ela renovou o sonho de marear. As cartas e o astrolábio estão guardados. Falta o registo do batelão, a fazer no tabelião. Depois será apenas ele e a turbulência do mar.
 
O máximo de palavras com B T L
publicado no blogue: historiasem77palavras.blogsopt.com
 
 
 
 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Paulo de Tarso

São Paulo ou Paulo de Tarso autor das mais belas cartas sobre a Fé, tem na sua Epístola aos Coríntios um dos textos mais belos e claros sobre o amor e o seu poder. Paulo depois de se reencontrar também ele com o dom da Fé, levou a vários povos a possibilidade de se encontrarem com os princípios Cristãos que ele professava. Foi um grande missionário, inspirado e dedicado, uma fome de humanidade e de transformação, que as suas cartas vêm como que uma bem aventurança.
 
Coríntios foi a primeira epístola de São Paulo à Igreja de Corinto, reforça os ensinamentos sobre a Santíssima Trindade e sobre o Espirito Santo.
 
Escrita num estilo apaixonado e vibrante, onde abundam as antíteses e frases cheias de ritmo e de sentido que se tornaram célebres, esta bem pode ser considerada a Carta magna do apostolado cristão, que nos informa sobre aspectos relevantes da missão de Paulo e sobretudo nos revela a sua alma, no que ela tem de mais humano e sobrenatural.


"O amor é paciente, é bondoso; o amor não é invejoso, não é arrogante, não se ensoberbece, não é ambicioso, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda ressentimento pelo mal sofrido, não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." Cap 13,
 
 
 
 
 

sábado, 1 de agosto de 2015

Quando fores assim

Sei que me amas, quando deixas de ser tu para saberes de mim:
Quando me deixas sem palavras,
Quando me surpreendes pela manhã
Quando te lembras de mim antes de adormecer
Quando me encontras sem eu perceber
Quando me mimas sem eu merecer
Quando me chamas em silêncio
Quando me aceitas sem palavras
Quando eu fico para ti, apenas.

@Maça de junho


https://youtu.be/AkBntrqDOO0



 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Fragilidade de Deus

 José Tolentino Mendonça (27-07-2015)

Há uma passagem da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (1Cor 1,25) que ao longo dos tempos tem despertado um interminável desconcerto. O texto, que pode ser consultado em qualquer tradução corrente, diz o seguinte: "O que é loucura de Deus é mais sábio que os homens e o que é fragilidade de Deus é mais forte do que os homens." Um dos comentários clássicos à passagem é de Tedoto de Ancira, um teólogo do século V, que resume assim o desassossego que Paulo de Tarso instala: "Como pode ser frágil o criador dos céus? Que fragilidade pode ser a daquele que com uma só palavra criou todas as coisas? O que é a fragilidade de Deus?" Mas o mesmo espanto continua a ser detetável entre exegetas contemporâneos. O reputado biblista Gordon D. Fee recordava recentemente que é difícil conceber, em toda a Escritura, um passo mais árduo — e também mais fascinante — do que este.
 Vale a pena determo-nos um pouco nas questões da tradução, mesmo correndo o risco de parecer demasiado técnico. De facto, uma surpresa que Paulo reserva é não utilizar nesta frase os esperados substantivos mõria (loucura) e astheneia (fragilidade),mas sim os adjetivos mõron (louco) e asthenes (frágil). E, na mesma linha, abandonar o habitual binómio "judeus/gregos", introduzindo aqui uma categoria mais universal: os "seres humanos" (antrõpõi). Uma tradução literal deveria, portanto, permitir ler o seguinte: "Na verdade, isto que é louco em Deus tem mais sabedoria do que os seres humanos, e isto que é frágil em Deus tem mais força do que os seres humanos."
 Há uma dupla questão que se impõe: 1) Como é que Paulo chega a esta arriscada formulação? 2) A fragilidade de Deus é realmente enfrentada por Paulo neste versículo ou ela tem uma aparição puramente instrumental no desenvolvimento argumentativo de uma outra questão mais consonante com a teologia tradicional (a questão da potência de Deus, por exemplo)?
 Em relação à primeira das interrogações há que reconhecer que Paulo não chega ao tema através da via bíblica. Quando, na Bíblia hebraica, surgem os vocábulos que descrevem loucura (Is 19,11; Sir 20,31; Sir 41,15) ou fragilidade (Sl 15,4; sab 2,11) eles estão exclusivamente atribuídos a sujeitos humanos e jamais a Deus. A loucura é um traço dos ímpios; a a fragilidade é vista como um défice, nunca como um bem ou virtude. Crê-se hoje, por isso, que estamos diante de um princípio elaborado pelo próprio Paulo, numa espécie de raciocínio por inferência, quando ele retira as consequências do regime de revelação operado pelo Messias crucificado.
 Sobre a segunda questão — de ponderação mais complexa — há, porventura, que refletir o seguinte: o que vemos insinuado sobre a fragilidade de Deus perderia o seu impacto projetivo se a nossa preocupação fosse saber se Paulo está mesmo a dizer que Deus é louco e frágil, afirmação que não se pode deduzir em nenhum passo do pensamento paulino. Ela torna-se sim positivamente desafiadora quando acompanhamos o modo de raciocinar de Paulo que procura — e consegue — no recurso ao paradoxo, mais do que no tratamento lógico e sistemático dos argumentos, um fortíssimo efeito persuasivo. Se observarmos bem, com o isto que é louco e o isto que é frágil o apóstolo não está apenas a denunciar o juízo equivocado do mundo que, baseado na própria e limitada experiência, avalia Deus insuficientemente. Paulo está também a testemunhar um ardente paradoxo, onde o louco e o frágil são, de facto, signos de uma inédita realidade que relança a revelação de Deus em novos moldes. Nesse sentido, só o discurso religioso que aprende a acolher o paradoxo da fragilidade de Deus aprende a abraçar até ao fim a fragilidade humana.

[José Tolentino Mendonça | Revista Expresso | e90]
 
 
 

domingo, 26 de julho de 2015