sábado, 17 de outubro de 2015

Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio...
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso
conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso
agora
que mais
me poderei vencer?
Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Amar sem motivos

Se nunca te tivesse conhecido, gostaria de te conhecer, nem que fosse apenas amanhã, ou depois, ou num dia futuro que ainda estivesse para vir. E seu eu pudesse antecipar esse dia, também o faria acontecer mais depressa. Há pessoas que em nada acrescentam a nossa vida e outras, mesmo do nada dão-nos algo que é imenso, nos dias mornos que percorremos. E tu desde esse primeiro dia, que muito provavelmente não recordas, esse primeiro dia que na tua memória foi apagado por outros primeiros dias de outras que se tornam especiais na exata medida do esquecimento, tu que dás uma dimensão aos meus dias, mesmo nos dias em que te ausentas. Nos dias em que transformas o meu cansaço em vibrante discussão, ou nos dias em que o adormecer tem um sentido de sonho e de esperança numa manhã renovada. E esse sentido especial faz com que me transforme em alguém capaz de ver o belo além da bruma e esperar que seja uma nota de violino, ou um sopro de vento, ou uma brisa primaveril a trazer-te de regresso a casa. A casa é o lugar onde o coração parou.

@Maça de junho



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Recomeço

Já falhaste alguma vez?
Eu já. Tantas. E vou falhar mais vezes ainda.
 
Já tentaste alguma vez?
Eu já. Muitas. E continuarei a tentar.
 
Não sou perfeita. Sou humana. E falho.
E tenho defeitos. Muitos. Alguns que tento corrigir.
Outros nem tento, pois não sei como.
 
E tu, não és perfeito, sabias?
Tens imperfeições e defeitos, que eu conheço e aceito.
Se gosto deles? De alguns não. De outros gosto, porque os compreendo e até lhes acho piada.
Ou até te dão charme.
 
Charme, dirias tu...
Sim, muito.
Foram os teus defeitos que me cativaram, mais que as tuas virtudes.
 
Essas quase todos conhecem, os outros não.
A tua superior inteligência e capacidade de trabalho
são garante de tudo o resto.
O ser especial onde a humanidade e o narcisismo por vezes se cruzam
 
E eu, eu amo ambos.
 
Podes falhar, errar, e tentar uma e outra vez
Recomeça
Eu estarei sempre ao teu lado
Até nos dias em que navegas nas margens do rio.
 
@Maçadejunho
 
 
 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Sentimento

Não calas o meu pensamento
Nem fechas o meu coração
Não há vendaval que tragas
Que me deixe desilusão

Permite que eu me aninhe
Debaixo da tua asa
Que guarde de ti o homem
Que me abordou num acaso

Serei tua para sempre
Enquanto viver e sentir
Este sopro de aconchego
Em cada manhã que sorrir.

@Maçadejunho






segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Notícia política

Mais um dia para atrofiar. Há catastrofismos naturais e há os políticos. Em Portugal vive-se uma espécie de atropelo à dignidade humana e aos direitos estabelecidos. Com o alto patrocínio do chefe de Estado assiste-se à encenação de uma peça de teatro de má qualidade. É como a libertação de atropina pela beladona que intoxica os insetos numa violência atroz. Agora restam mais quatro anos de demagogia.

Desafio nº 99 – 8 a 10 palavras com ATRO
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Fado

Chama-me atenção daquilo que tenhas razão
Mas não me critiques daquilo que desconheces
Sabes lá onde plano e em que plano te tenho.
A mágoa que me ficou fará de mim outra sorte
Aquela que me couber entre ervas daninhas tristonhas.

Meu fado é triste e perdido entre lágrimas de sal
Maior que o sentimento que no teu corpo apagas
Talvez um dia reconheças a injustiça que cometes
Cada vez que te arremetes contra o meu coração ferido
Chorando de solidão a vida inteira

@Maça de junho






 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Pelo existencialismo do ser humano

Não sei se sou existencialista ou não. Mas uma coisa sei. A minha reflexão recai sempre sobre o ser humano individual, sobre aquele ser, com as características próprias, a sua personalidade, a sua existência individual e única. Depois tento não limitar a minha observação ao que sobressai, aquilo que socialmente apresenta e representa. Procuro sempre o que de bom transporta e o que de bom pode ser revelado e revelador. Bem sei dos defeitos, das fragilidades e das manias, mas também sei que essas características muitas vezes não são propriamente o maior defeito, mas sim o truque para matizar as inseguranças, as feridas e as experiencias que transporta.
Tenho quem me trate por madre Teresa, e embora muitas vezes o faça com entoação pejorativa, com a intenção de menorizar a minha iniciativa, de me quebrar na auto estima, fá-lo pela sua própria insegurança, pelo medo da perda, pela necessidade de auto afirmação do seu próprio ego. Por vezes dói, outras nem tanto, porque conheço bem o que penso e sinto e as dúvidas do outro não são as minhas.
Todo o ser humano tem dentro de si um fundo de bondade. O que não sabe é valorizá-lo e desenvolvê-lo, e por vezes esconde essa réstia de coisas boas porque é mais fácil agir de forma egoísta, egocêntrica e manipuladora. Por vezes nem é o mais fácil, mas é o que resulta melhor, o que dá sucesso, o que facilita escolhas, o que transpõe as barreiras sociais e legais rumo ao êxito. E é então que o humanismo deixa de ter sentido nesse ser humano.
Quando desisto de um ser humano é porque a minha impotência para o perdão, para a compreensão e para ultrapassar já foram postos à prova uma e outra vez e já não tenho, também eu, mais capacidade de resistir.
O homem começa por existir e são primeiramente a família e os afetos que o moldam. Depois, vem a integração social, as escolhas de vida, os projetos que vai construindo. Então tudo isto pode coexistir com os afetos, com os princípios de vida e de coerência, com a humanidade que transporta desde o momento em que começou a respirar no mundo.
Acredito que há um fundo bom em cada ser humano, o que por vezes não é visível nem perceptível porque coberto e encoberto pelas construções desumanizadas e egoístas que transporta.
Tu que me lês, que vens aqui à procura de sinais de ti, não interpretes mal os sinais, não deixes que esta construção dura que transportas, isenta de sentimentos e de respeito pelo outro te transformem num ser humano, onde a humanidade se ausentou.
@Maça de junho
 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Outono

Tu bem sabes que sim, és motivo de inspiração, de admiração e de rebeldia. Tu bem sabes que nada do que faço é contra ti, mas o contrário não posso admitir, seres contra mim. O teu carisma e a tua capacidade de vencer derrotam montanhas. Mas há palavras que não uso. Há palavras cujo significado não conheço. Há palavras que não admito. Para mim as palavras servem para dizer o quanto amo, ou para dizer do deslumbramento que os olhos medem, ou para ficarem boquiabertas de espanto pela beleza. Mas há palavras que são silícios. Serei sempre uma maçã, doce, fresca, desejada.
És fonte de inspiração e de muitas outras coisas também. Até poderei ser acusada de plágio, mas a beleza deste outono, apenas a mim me pertence, mesmo que a tenhas sonhado noutros quadrantes:

Outono de folhas caídas, de sol envergonhado
Vidas descendentes em escadas percorridas
Sonhos desfeitos, por vezes sonhados e perdidos.
 Num ser que nasce velho
E se renova pelo espírito
Que o tempo de ser novo, já se foi.
@Maçadejunho
 
 

sábado, 26 de setembro de 2015

Um amigo fiel e gracioso

A nossa vida não pertence apenas a nós mesmos. Pertence à família e aos amigos e àqueles que vamos encontrando pelo caminho e de algum modo nos ajudam a conhecer mais um pouco, do eu de cada um. Por vezes transformam-se em amigos, em pessoas especiais. São quase sempre pessoas melhores que nós, infinitamente melhores. Fazem coisas deliciosamente bonitas, ensinam-nos a pensar mais nos outros que em nós, descobrem na nossa pele as marcas que durante a vida escondemos do mundo. Eu tenho a sorte de ter encontrado algumas pessoas assim. E tenho a sorte de me ter tornado um pouco melhor depois de inspirar também desse carisma que transportam. Por vezes não é fácil conciliar o lado biológico e espiritual de cada um, é o nosso jeito de ser e de estar (como na canção da Bethânia, eu sei que tenho um jeito meio estúpido de ser e de dizer, coisas que podem magoar e ofender (...)), mas é apenas desta forma que derrotamos o medo, ao aceitar a noite e o nada, a fraqueza e a assertividade, o desapego e a persistência, sem nunca desistir, nem abandonar o caminho, nem a humanização de cada um. Melhor dizendo, tem a ver com a humanização de cada um destes seres imperfeitos e frágeis, e esta humanização é composta pelas fraquezas, também. E são eles, essas pessoas que não são as melhores do mundo, mas são as melhores do nosso mundo, que tantas vezes nos obrigam a sentir o chão, a olhar as montanhas lúgubres e frias, mas também pensam com carinho e nos mantêm o mundo a girar. Está nas nossas mãos cultivar e cuidar, como o agricultor, até mesmo quando não tem a posse absoluta da terra, cultiva-a, lavra, semeia e protege. E quando fecharmos os olhos como que num mistério, sentirmos que também habitam dentro de nós, sem preconceitos. Assim chegarmos a nós próprios com verdade,  capazes de reflexão e quietude, porque somos feitos de tantas coisas, mas tantas e tão diferentes.
 
@Maçadejunho
 
 
 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

DESCANTE

A lua fria no céu
Lembra o sexo de mulher
Morta e despida no leito...
Uma mulher que morreu
No desespero de ter
Um homem quente e perfeito.

Miguel Torga, Diário III (Coimbra 2 de Fevereiro de 1945)

the dark chest of wonders | via Tumblr:

 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O velho casarão

O velho casarão guardava ainda as tuas memórias. As escadas com o seu patamar onde tantas vezes brincaste às bonecas, e o jardim de glicínias e hortênsias onde os gatos se escondiam nos dias em que o sol era tórrido e estendiam o pelo luzidio quando o outono apenas deixava passar um sol envergonhado.  Lá dentro continuava tudo igual ao que deixaste. Os móveis na sala, a  partitura que se mantinha aberta, no piano. Faltavas tu apenas.

77 palavras para descrever a foto
publicado em historiasem77palavras.blogspot.com