domingo, 25 de outubro de 2015

No barco Rabelo

Rir a bandeiras despregadas, parecia uma metáfora, não fora toda a história se ter passado num barco. Dentro de um rabelo no rio Douro, com as bandeiras ao vento e muita animação a bordo. Depois de um passeio pelo centro histórico, o grupo entrou no barco para o passeio tradicional e um lanche ligeiro. Da comitiva fazia parte uma criança. Quando pretendem servir a criança, esta responde: -Já lanchei. Vim comer quando cheguei, não estava ninguém. Gargalhada geral!
 
ESCRTV nº1 - Descrever um momento de riso
 
Desafio publicado no blogue historiasem77palavras.blogspot.PT
 
@maçadejunho
 




 
 


 

domingo, 18 de outubro de 2015

Tradições

Em Sotal do Mar, as tradições ainda se vão mantendo de rédea solta. Nas lotas as petingas despejadas das redes onde saltam descuidadas e adormecem, são o acompanhamento do arroz malandrinho enriquecido pelos talos de couve tronchuda. Ao pôr-do-sol as varinas percorrem as ruas empedradas, onde o salto das socas tropeça, parecendo andorinhas tolas a esvoaçar. Tudo isto enquanto o galeão continua na amplitude do mar a percorrer os latos mares da faina. Altos vão os sonhos.

1- descobrir o máximo de anagramas com as letras  ALSTO;
2- escrever um texto em 77 palavras utilizando as palavras obtidas
publicado em historiasem77palavras.blogspot.pt
@Maçadejunho






Outono melancólico

Gosto dos dias de outono. Gosto da serenidade dos dias em que amanhece timidamente o sol num jogo de escondidas com as nuvens que são empurradas pelo vento, num vaguear desconcertante e desajeitado. Gosto das cores e dos odores. Da doçura dos frutos maduros em compotas, em frascos de vidro e taças coloridas. Dos jardins atapetados pela maciez das folhas que vão caindo e rodopiando numa despedida de encanto. Do colorido que dão aos jardins, substituindo o cor de rosa e branco e lilás ou amarelo das flores, pelo vermelho, castanho, ocre ou grená das folhas. Gosto de ver os plátanos multicoloridos, as amareladas tílias, ou o mundo castanho e ocre do castanheiro. Da chuva precoce que assoma à janela e deixa um torpor lânguido em que apetece o chá fumegante e as bolachas de gengibre.  
 
Agora, neste momento em que escrevo, apetecia-me encontrar-te de novo, e de renovados sentimentos, porque postos à prova teimam em permanecer, deixar-me envolver nesse abraço junto à fonte dos encontros, debaixo da figueira da Austrália, equilibrados na extensão das suas raízes, entrelaçadas,  tal amor de Pedro e Inês, que no misticismo perdura.
 
Bem sei que é sonho e quando acordar, o dia estará triste e sombrio. Como os sonhos que muitas vezes se repetem ou da vivência de amigos no calor de um abraço ora tímido ora expansivo.
E o outono continuará a percorrer os jardins, e o tempo.
 
@Maçadejunho




 
 





 


 

sábado, 17 de outubro de 2015

Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio...
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso
conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso
agora
que mais
me poderei vencer?
Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Amar sem motivos

Se nunca te tivesse conhecido, gostaria de te conhecer, nem que fosse apenas amanhã, ou depois, ou num dia futuro que ainda estivesse para vir. E seu eu pudesse antecipar esse dia, também o faria acontecer mais depressa. Há pessoas que em nada acrescentam a nossa vida e outras, mesmo do nada dão-nos algo que é imenso, nos dias mornos que percorremos. E tu desde esse primeiro dia, que muito provavelmente não recordas, esse primeiro dia que na tua memória foi apagado por outros primeiros dias de outras que se tornam especiais na exata medida do esquecimento, tu que dás uma dimensão aos meus dias, mesmo nos dias em que te ausentas. Nos dias em que transformas o meu cansaço em vibrante discussão, ou nos dias em que o adormecer tem um sentido de sonho e de esperança numa manhã renovada. E esse sentido especial faz com que me transforme em alguém capaz de ver o belo além da bruma e esperar que seja uma nota de violino, ou um sopro de vento, ou uma brisa primaveril a trazer-te de regresso a casa. A casa é o lugar onde o coração parou.

@Maça de junho



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Recomeço

Já falhaste alguma vez?
Eu já. Tantas. E vou falhar mais vezes ainda.
 
Já tentaste alguma vez?
Eu já. Muitas. E continuarei a tentar.
 
Não sou perfeita. Sou humana. E falho.
E tenho defeitos. Muitos. Alguns que tento corrigir.
Outros nem tento, pois não sei como.
 
E tu, não és perfeito, sabias?
Tens imperfeições e defeitos, que eu conheço e aceito.
Se gosto deles? De alguns não. De outros gosto, porque os compreendo e até lhes acho piada.
Ou até te dão charme.
 
Charme, dirias tu...
Sim, muito.
Foram os teus defeitos que me cativaram, mais que as tuas virtudes.
 
Essas quase todos conhecem, os outros não.
A tua superior inteligência e capacidade de trabalho
são garante de tudo o resto.
O ser especial onde a humanidade e o narcisismo por vezes se cruzam
 
E eu, eu amo ambos.
 
Podes falhar, errar, e tentar uma e outra vez
Recomeça
Eu estarei sempre ao teu lado
Até nos dias em que navegas nas margens do rio.
 
@Maçadejunho
 
 
 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Sentimento

Não calas o meu pensamento
Nem fechas o meu coração
Não há vendaval que tragas
Que me deixe desilusão

Permite que eu me aninhe
Debaixo da tua asa
Que guarde de ti o homem
Que me abordou num acaso

Serei tua para sempre
Enquanto viver e sentir
Este sopro de aconchego
Em cada manhã que sorrir.

@Maçadejunho






segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Notícia política

Mais um dia para atrofiar. Há catastrofismos naturais e há os políticos. Em Portugal vive-se uma espécie de atropelo à dignidade humana e aos direitos estabelecidos. Com o alto patrocínio do chefe de Estado assiste-se à encenação de uma peça de teatro de má qualidade. É como a libertação de atropina pela beladona que intoxica os insetos numa violência atroz. Agora restam mais quatro anos de demagogia.

Desafio nº 99 – 8 a 10 palavras com ATRO
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Fado

Chama-me atenção daquilo que tenhas razão
Mas não me critiques daquilo que desconheces
Sabes lá onde plano e em que plano te tenho.
A mágoa que me ficou fará de mim outra sorte
Aquela que me couber entre ervas daninhas tristonhas.

Meu fado é triste e perdido entre lágrimas de sal
Maior que o sentimento que no teu corpo apagas
Talvez um dia reconheças a injustiça que cometes
Cada vez que te arremetes contra o meu coração ferido
Chorando de solidão a vida inteira

@Maça de junho






 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Pelo existencialismo do ser humano

Não sei se sou existencialista ou não. Mas uma coisa sei. A minha reflexão recai sempre sobre o ser humano individual, sobre aquele ser, com as características próprias, a sua personalidade, a sua existência individual e única. Depois tento não limitar a minha observação ao que sobressai, aquilo que socialmente apresenta e representa. Procuro sempre o que de bom transporta e o que de bom pode ser revelado e revelador. Bem sei dos defeitos, das fragilidades e das manias, mas também sei que essas características muitas vezes não são propriamente o maior defeito, mas sim o truque para matizar as inseguranças, as feridas e as experiencias que transporta.
Tenho quem me trate por madre Teresa, e embora muitas vezes o faça com entoação pejorativa, com a intenção de menorizar a minha iniciativa, de me quebrar na auto estima, fá-lo pela sua própria insegurança, pelo medo da perda, pela necessidade de auto afirmação do seu próprio ego. Por vezes dói, outras nem tanto, porque conheço bem o que penso e sinto e as dúvidas do outro não são as minhas.
Todo o ser humano tem dentro de si um fundo de bondade. O que não sabe é valorizá-lo e desenvolvê-lo, e por vezes esconde essa réstia de coisas boas porque é mais fácil agir de forma egoísta, egocêntrica e manipuladora. Por vezes nem é o mais fácil, mas é o que resulta melhor, o que dá sucesso, o que facilita escolhas, o que transpõe as barreiras sociais e legais rumo ao êxito. E é então que o humanismo deixa de ter sentido nesse ser humano.
Quando desisto de um ser humano é porque a minha impotência para o perdão, para a compreensão e para ultrapassar já foram postos à prova uma e outra vez e já não tenho, também eu, mais capacidade de resistir.
O homem começa por existir e são primeiramente a família e os afetos que o moldam. Depois, vem a integração social, as escolhas de vida, os projetos que vai construindo. Então tudo isto pode coexistir com os afetos, com os princípios de vida e de coerência, com a humanidade que transporta desde o momento em que começou a respirar no mundo.
Acredito que há um fundo bom em cada ser humano, o que por vezes não é visível nem perceptível porque coberto e encoberto pelas construções desumanizadas e egoístas que transporta.
Tu que me lês, que vens aqui à procura de sinais de ti, não interpretes mal os sinais, não deixes que esta construção dura que transportas, isenta de sentimentos e de respeito pelo outro te transformem num ser humano, onde a humanidade se ausentou.
@Maça de junho
 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Outono

Tu bem sabes que sim, és motivo de inspiração, de admiração e de rebeldia. Tu bem sabes que nada do que faço é contra ti, mas o contrário não posso admitir, seres contra mim. O teu carisma e a tua capacidade de vencer derrotam montanhas. Mas há palavras que não uso. Há palavras cujo significado não conheço. Há palavras que não admito. Para mim as palavras servem para dizer o quanto amo, ou para dizer do deslumbramento que os olhos medem, ou para ficarem boquiabertas de espanto pela beleza. Mas há palavras que são silícios. Serei sempre uma maçã, doce, fresca, desejada.
És fonte de inspiração e de muitas outras coisas também. Até poderei ser acusada de plágio, mas a beleza deste outono, apenas a mim me pertence, mesmo que a tenhas sonhado noutros quadrantes:

Outono de folhas caídas, de sol envergonhado
Vidas descendentes em escadas percorridas
Sonhos desfeitos, por vezes sonhados e perdidos.
 Num ser que nasce velho
E se renova pelo espírito
Que o tempo de ser novo, já se foi.
@Maçadejunho