domingo, 10 de janeiro de 2016

Escuto
Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus...
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado, amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco...

(Sophia de Mello Breyner Andresen)



https://youtu.be/EV8kgnJuNFs

 

sábado, 9 de janeiro de 2016

Jardim de proteáceas

Protegido, desde a infância, como Proteu. Quando por falta de proteína, precisou daquela prótase. Durante toda a vida foi protagonizando as mais diversas façanhas. Até um erro no protocolo fez dele o protagonista, na peça de teatro do liceu.

Hoje liderou o protesto, que levou o governo a protelar a decisão de legislar sobre um novo protótipo.  Não vai permitir que alterem as regras de cultivo e comercialização das suas proteáceas, as protagonistas de qualquer jardim madeirense.

Desafio 102 – usar o máx de prefixo PROT
Publicado em: historiasem77palavras.blogspot.pt
 





https://www.youtube.com/watch?v=5JZbAwmZNlo
 
 
 
 
Coimbra, 9 de Janeiro de 1979.

MUSA
Se vens, perco a razão...
E digo o que não quero.
Se não vens, desespero
E gasto o coração
A desejar-te.
Ah, como é difícil a arte
De te ser fiel!
E como é cruel
A tua tirania!
Noite e dia
Pregado
A um madeiro sagrado
De amargura.
Duramente sujeito,
Ou então contrafeito
Na minha liberdade sem loucura.

Diário XIII, Miguel Torga


                                           Joaquín Sorolla (Valencian Fishergirl. 1916)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Escritiva 3

Caos e incertezas
Nuvens encrespadas rasgam o céu azul. Sentado na praia, debaixo daquela chuva, chora a recente perda. O salpicar das ondas vai-se desvanecendo na praia, e nele o sonho, a ilusão, o amor. O vento cortante fustiga-lhe o rosto, com a espuma branca.
Na rua é o caos. Tal como dentro de si. Só tem duas opções: continuar as sessões, ou passar a viver com como fantasma vermelho. É tudo uma questão de escolha. Escolha não. Lenitivo mental.
 
Uma história em 77 palavras, contendo as palavras azul/amor/vento/vermelho/chuva/rua
Publicado em historiasem77palavras.blogspot.pt
@macadejunho
 
 
 
 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Dia de Reis

Guiados por uma estrela, deixaram tudo, e foram procurar, foram ao encontro dele, e avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho. A estrada tem de ser outra. Precisamos encontrar um caminho novo. Não pode haver desencontros. Há sempre uma linha onde nos cruzarmos com o bem, basta entender os sinais e seguir por aí. Não ter medo. Não nos acomodarmos, nem nos incomodarmos não sendo seguidos. A estrela vai-nos guiando, precisamos é segui-la, reconhecê-la, procura-la por entre nuvens e ventos, por entre o medo e a desilusão. A esperança em chegar lá não pode soçobrar.
Hoje é o dia em que o exemplo destes Reis, despojados de tudo, com o seu saber, com a sua coragem, dão um exemplo de sabedoria, fé e perseverança. Sejamos todos os dias um pouquinho reis magos, um pouquinho pastores e um pouquinho profetas.
Bom dia de reis
@macadejunho

 

sábado, 2 de janeiro de 2016

Miguel Torga



Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Janeiro de 1940.
ARIANE
Ariane é um navio....
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...
Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre gaivotas que se dão no rio.
Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.


Diário I, Miguel Torga











sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Não te peço mapas, peço-te caminhos.
O gosto dos caminhos recomeçados,
com as suas surpresas, as suas mudanças, a sua beleza.
Não te peço coisas para segurar,
mas que as minhas mãos vazias...
se entusiasmem na construção da vida.
Não te peço que pares o tempo na minha imagem predilecta,
mas que ensines os meus olhos a encarar cada tempo
como uma nova oportunidade.
Afasta de mim palavras,
que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias.
Que eu não pense saber já tudo acerca de mim e dos outros.
Mesmo quando eu não posso ou quando não tenho,
sei que posso ser, ser simplesmente.
É isso que te peço, Senhor:
a graça de ser de novo."

( José Tolentino de Mendonça)

 
 
Happy New Year
Bonne Année
Bom Ano
Feliz 2016
 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Bom ano

Votos de Feliz Ano Novo.
Com afeto, com despreendimento e buscando no desapego a energia que preciso para novo fôlego e novos desafios. Sim, vou continuar a procurar e a deixar-me encontrar por novos projetos, novas aventuras e renovadas esperanças.
Também não farei balanço sobre o que passou. É passado e se não deixou marca, é porque não trazia empatia, nem sinceridade, nem conforto.
Quando nos esquecemos das metas usufruímos melhor os percursos.
Guardo apenas o que me tr...ouxe carinho, reconhecimento, atitudes positivas, sorrisos e vontade de acreditar ou de partilhar algo de bom e verdadeiro.
Cada vez mais, procuro a serenidade dos dias, a complacencia dos afetos, a ternura das coisas simples, do abraço apertado e dos sorrisos infantis.
A construção do Ano Novo começa dentro de cada um e nos sonhos que trazemos dentro de nós.
Vou continuar a sonhar!
Happy 2016
Beijos e abraços amigos


@Maçadejunho

 
 
 
 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Mitos e Impostos

A conversa foi breve e versava sobre impostos, a sobretaxa extraordinária e o fim dela - taxa e as novas declarações de IRS e o fim delas. Sobre as decisões políticas de revogar leis e de não revogar outras. Foi curta, mas como sempre profícua.  Saldanha Sanches num artigo do Expresso, depois de António Costa ser eleito para a Câmara de Lisboa, escrevia: "(...) havia a esperança de que ele conseguisse mudar a Câmara. Agora o que voga por aí é o receio de que a Câmara consiga mudar António Costa."  E de repente lembrei-me de Penélope, filha de Icárius e esposa de Ulisses, aquela a quem o marido desaparecera por mais de vinte anos, na guerra de Tróia. Enquanto esperava, tentava arranjar artifícios capazes de convencer o pai a não a obrigar a casar com os pretendentes que iam surgindo. Uma das estratégias foi tecer  um sudário para o sogro e durante o dia, aos olhos de todos, tecia, e de noite, às escondidas desfazia o que fora feito, para ir adiando as condições que o pai propunha. O marido por lá andava na guerra de Troia, cuja origem foi a bela Helena e o rapto de que foi alvo por parte de Páris, o príncipe troiano. Além destes, a bela Helena terá ainda  casado com Teseu e Aquiles. O quinto marido terá sido Deífobo, com quem casou depois da morte de Páris. Homero foi sempre uma leitura difícil e proibida durante largos períodos da história, embora de grande relevo no Renascimento, quer pelo facto de haver dúvidas se os acontecimentos são históricos ou apenas mitológicos, ainda que revestidos de grande e engalanado sentido poético.   Esperemos pois que a "reforma" legislativa em curso não siga as pisadas de Penélope e desfaça tudo o que foi feito.   o melhor é nem tentar decifrar o mito. ag
 
 
@Maçadejunho
 
 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

FELIZ NATAL

Hoje sobre nós resplandece uma luz:
nasceu o Senhor.
O seu nome será Admirável, Deus forte, ...
Pai da eternidade, Príncipe da paz.
E o seu reino não terá fim."

Is 9, 2.6; Lc 1, 33

Presépio na Paróquia da Nossa Senhora da Boavista - Porto
 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

RETÁBULO


Estranho Menino Deus é o dum poeta!
O que nasce e renasce há muitos anos
Na minha noite de Natal, fingida,...
Mal corresponde à imagem conhecida
Das sucursais do berço de Belém.
É uma criança tímida que vem
Visitar os meus sonhos, e, ao de leve,
Com mãos discretas, tece
Um poema de neve
Onde depois se deita e adormece.


in, Miguel Torga
Diário VII

 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

NATAL
Um anjo imaginado,
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,...
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e oiro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breves como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai:
À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternamente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

Miguel Torga
Diário IX