sábado, 19 de março de 2016

Vou tecendo os dias enquanto espero que tu chegues
veloz e alegre. Mas não chegas. Escuto apenas silêncio.
E o silêncio não me sossega. Não me diz que o novelo dos dias 
vai crescendo enquanto seguras o fio que a primavera vem tecer.
Nem me diz das tuas dores, nem das tuas vitórias. Esconde as palavras
por que eu espero. E a espera é o pior do silêncio.

E oiço a voz dele, do silêncio, que mandaste ter comigo. E ele não me diz que estás a olhar as flores e a sorrir, nem me diz que te enfureceste com o mundo e com o frio deste inverno que teima em ficar. E eu queria que o mundo te provocasse, para mandares embora o silêncio e trazeres de novo as palavras que nos unem. E voltar de novo a ouvir o meu nome.
@maçadejunho
 

quinta-feira, 17 de março de 2016

No silêncio

Soubesse eu obedecer-te.
E de silêncio polvilhar a noite
Não quero ficar calada neste momento
Apenas lembrar todo o contentamento
de brincar contigo debaixo da macieira florida
Para te amar de novo, como os frutos que hão-de nascer.
@maçadejunho

 

terça-feira, 15 de março de 2016

Na escola

Não mais, nem
menos. Quatro letrinhas apenas,
a rir.
Podem sentir, sorrir, dormir.

O bibe da Sara é rosa
botões soltos redondinhos
doce flor ao sol,
Quando passeio neste recreio.

Já sei ler
Escrever, também contar, saltar quando brincar
Só não sei
desenhar nuvens brancas.
Já sei o A o B até o Z
Zumbido, postigo, formigo, lagarto pintado.
Olha bem para mim mãe.

Oiço a tua voz que me toca
Quanto encanto, entoando solene neste coração.

RS 35 - desafio publicado em www.77palavras.blogsopt.com
Uma frase de 4 letras seguida por outra com mais letras












 

quarta-feira, 9 de março de 2016

Ó Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher


Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos ...
[e quedos.
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.



Fernando Namora, in Mar de Sargaços.

 

terça-feira, 8 de março de 2016

Dia da Mulher é hoje e ontem e amanhã

POEMA MELANCÓLICO
A NÃO SEI QUE MULHER
Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram; ...
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

in, Diário VII, Miguel Torga


domingo, 6 de março de 2016

Quase primavera

Tenho saudades da primavera. Mas hoje o dia esteve "quase primavera". Agora o sol já se escondeu e ficou frio.
Tenho saudades da minha jardinagem. Dos meus vasos, que estão lá fora na intempérie e sem cuidados desde o outono. O tempo é escasso. E eles vão ficando em modo de "espera". Mas é bonito ver que as orquídeas rebentam e desde o Natal que há sempre um vaso florido. O narciso do cantinho, já floriu e já está a morrer e quase nem o vi. As cucas como a minha mãe lhes chama estão numa profusão de amarelo. Enfim, deve ser o Espirito Santo que na sua infinita misericórdia (quaresmal) vai zelando pela minha floricultura. Mas preciso urgentemente por as mãos na terra e tratar de fazer a sementeira.
O que não falta hoje, que é domingo, é o nosso bolinho saboroso e que dá para a semana toda nos deliciarmos com um mimo.
Colocarei as fotos quando tiver tudo pronto, para já fica a receita:

Bolo de maçã:
4 ovos grandes
250 gr. açúcar
100ml leite
150 gr manteiga
1colher chá de fermento
300 gr farinha
4 maças grandes (usei reinetas)

Barre uma forma com manteiga e polvilhe com açúcar.
Descasque e corte as maçãs ás fatias finas, e regue-as com sumo de limão para não ficarem escuras, e forre a forma com as fatias de maçã.

Bata as gemas com o açúcar até obter um creme fofo, em seguida adicione a manteiga derretida e o leite e continue a bater.

Misture a farinha peneirada com o fermento e mexa com uma colher. Bata as claras em castelo e envolva na massa.
Coloque uma camada de massa na forma.
Coloque em seguida uma camada de maçã cortada em fatias e nova camada de massa.
Leve ao forno a 180ºC durante + ou - 40 minutos, ou até ficar cozido, faça o teste do palito para ter a certeza.

Retire do forno, deixe arrefecer um pouco, passe uma faca, com cuidado, à volta da forma e desenforme.
@Maça de junho
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Torga

Coimbra, 28 de Fevereiro de 1981 - Há ocasiões em que os sentimentos valem como argumentos. E calei-o assim: sabia perfeitamente que a liberdade não é a mola real do homem. Que outras forças mais poderosas o solicitam a todo o instante. O fanatismo religioso, os mecanismos económicos ou as paixões políticas, por exemplo. Que não ignorava a que extremos de servidão podem chegar nações inteiras, cegas pela fé ou rendidas a qualquer ideologia. Que a ideia de que a liberdade é uma força incoercível tem muito de romântico. Simplesmente acontecia que tal romantismo, mesmo exautorado, nunca deixou de fazer frente à opressão, ate quando tudo parece perdido. E é essa vontade insofrível de quebrar todas as cadeias que desde rapaz sinto também no âmago da alma, embora tristemente convencido pela dura experiência da vida que este baixo mundo de ilusões não passa de uma redonda clausura.

Miguel Torga, Diário XIII




https://www.youtu.be%2FiiAylleR64Y&h=DAQHlR0-1&s=1
 

sexta-feira, 4 de março de 2016

Amar, perdoar e acreditar

Quem for mal amado, ama mal. Se não é amado, tem mais bloqueios, maiores fragilidades em amar muito e amar bem.
Quem for bem amado, pode amar bem. Tem mais possibilidade de ser mais amado e amar sempre mais e melhor.
 
Purgatório não é um terceiro lugar. Purgatório é apenas um estado, mais ou menos passageiro, conforme as feridas que transporta e conforme a capacidade de as curar.
 
Quando vou à festa se não participo plenamente na festa, se há algo que ainda nºao está resolvido, não vou participar plenamente na festa. A capacidade de ultrapassar este estado de purgatório, de sarar as feridas que não deixam que a festa entre em mim, quanto maior, mais rapidamente me vai curar e deixar entrar no Reino dos Céus.
Não é Deus quem no tira do purgatório. Somos nós quem devemos fazer o caminho para sair dele.
Somos nós quem se deve exercitar no sentido do amor, e assim sabermos ser felizes e integrados neste reino onde todos cabem, e onde todos são verdadeiramente amados.
 
Também a Páscoa é a passagem para esse reino onde acreditamos ser felizes.
É a passagem pela redenção de sermos novos, de perdoar sempre e renascer de novo.
 
@Maçadejunho



 
 
 
 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Mistérios de boticário

A temperatura estava muito próxima. Os sentidos, aturdidos tomavam especiais medicamentos. Pós, olfatos, sorrisos. Até tratando, esbaforidas mezinhas punham olhos saudáveis. Alcatrão tirava emplastros mornos. Paravam os sonhos. Alimento temporal e muito preparado: orgânico seco.
África trocava espinhos mortíferos por orgulho secular. Animais transgénicos estranhos moviam-se para outras savanas. Aceitando ter escolas mais populosas. Ouviam saboreando a tradição. Enquanto morriam prometiam olímpicas soluções.
Além Tejo era mistério para outros sabonetes. Artesanais tinham enxofre. Misteriosos, partilhavam óleos santos.

Uma história em 77 palavras, apenas usando palavras começadas por:
A T E M P O S
a utilização no texto exatamente pela ordem indicada
 
 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

III Domingo da quaresma

Mesa da Palavra: CHAMA QUE CHAMA E AMA

1. No programa de «preparação» para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã, o Domingo III da Quaresma está marcado pelos primeiros «escrutínios» para os catecúmenos: primeira «chamada» para a Liberdade.
 2. No Evangelho deste Domingo III da Quaresma (Lucas 13,1-9), Jesus atira tudo contra o nosso coração dormente e empedernido: atira a crónica e a parábola. Tudo serve para gravar em nós a conversão. A crónica refere a brutalidade de Pilatos que massacrou um grupo de Galileus e a queda da torre de Siloé que matou 18 pessoas. Pois bem, Jesus não se insurge contra o poder romano nem invoca o fatalismo, mas também não desperta sentimentalismos fáceis e de ocasião, nem tão-pouco se refugia em esquemas feitos: eram pecadores e por isso foram castigados por Deus. O que equivale a dizer também: não é o nosso caso, Deus está do nosso lado, podemos continuar a viver tranquilos. Jesus ouve e passa diante dos olhos a crónica. Mas não fica a olhar para trás, a lamentar-se ou a levantar falsas culpabilizações. Jesus não é reativo, mas proativo. Vira a inteira crónica para nós e diz que, face à precariedade da vida, só nos resta converter-nos! Lição oportuna para nós, que perdemos ainda muito tempo a comentar as notícias, sempre trágicas, dos jornais. De forma diferente, da crónica Jesus retira sabiamente, não o pecado dos outros, mas a conversão para nós, grande tema quaresmal, que nos acompanha desde Quarta-Feira de Cinzas.
 3. Depois pega na parábola da figueira, talvez com muitas folhas, mas sem figos. E põe em cena aquele belo acerto de contas entre o dono do pomar (o Pai) e o cultivador (Jesus, o Filho). Os «três anos» apontam para o ministério de Jesus. Aqueles «três anos» de cuidados parece que não foram suficientes para levar aquela figueira, que somos nós, a dar frutos. É-nos dado «ainda mais um ano» de graça para frutificar. Não, não é a paciência de Deus que a parábola acentua, mas a urgência da nossa conversão. A parábola constitui, portanto, um fortíssimo apelo à conversão. Mas devemos ainda fixar o coração nesta impressionante maravilha que é sermos comparados por Jesus a uma árvore boa plantada por Deus no mundo, neste mundo, para dar bom fruto!
 4. Extraordinária a história de Moisés (Êxodo 3,1-8 e 13-15). Segundo êxodo 7,6 e Atos 7,30, o episódio que hoje temos a graça de ouvir situa-se aos 80 anos da vida de Moisés. Foi então que Moisés foi encontrado por Deus no deserto e foi incumbido de libertar os seus irmãos oprimidos ou escravizados ou instalados, ou oprimidos ou escravizados, porque instalados, no Egito, e de os conduzir, através do deserto, até à entrada da Terra Prometida. No referido episódio, Moisés é pastor e tem um caminho a seguir: o caminho das suas ovelhas. Mas vê uma Visão grande e nova: uma sarça que arde, mas não se consome. E diz o texto, na sua versão original, que Moisés se «desviou do caminho» para ver melhor aquela visão grande. O caminho de Moisés era o caminho das ovelhas que pastoreava. Ao desviar-se do caminho, Moisés age como uma criança curiosa e deslumbrada! Mas as crianças são louvadas no Evangelho, e todos somos advertidos que, se não nos tornarmos como as crianças, não entraremos no Reino de Deus (Marcos 10,14-15). E Deus, que habitava naquela «chama que chama», contou-se a Moisés: 1) Eu BEM VI o sofrimento do meu povo; 2) e OUVI os seus clamores; 3) CONHEÇO a situação; 4) DESCI a fim de o libertar e conduzir para a terra da liberdade. Está aqui, nestes quatro VERBOS, a história de Deus, a santidade de Deus, que SAI DE SI para vir ao nosso encontro. Note-se bem que contando-se nestes verbos, Deus se afasta dos ídolos, que a Escritura Santa diz que não vêem, nem ouvem… E um pouco depois, ao dizer o seu NOME, Deus diz-se outra vez, não com um nome estático, mas com um verbo na forma activa: «Eu Sou». Outra vez diferente dos ídolos inúteis, vazios e inactivos.
 5. É importante não deixarmos para trás, no esquecimento, um versículo que a lição de hoje de Êxodo 3 omitiu: o versículo 10. Aí, Deus diz a Moisés: «E agora VAI; Eu te envio ao Faraó, e FAZ SAIR do Egipto o meu povo, os filhos de Israel». Ficamos então a saber que Deus, que está bem atento a todos as situações difíceis dos seus filhos, nunca responde alguma coisa… Deus nunca responde alguma coisa. Deus responde sempre ALGUÉM! Aqui, nesta situação de opressão do seu povo no Egipto, a resposta de Deus é Moisés. E hoje, quem é hoje a resposta de Deus para as situações difíceis do mundo hoje? Sem equívocos: a resposta de Deus hoje somos nós!
 6. A reflexão que Paulo nos oferece neste Domingo III da Quaresma (1 Coríntios 10,1-6.10-12) é exemplar e encaixa perfeitamente com o Evangelho. No deserto, o Povo conduzido por Deus e por Moisés foi rodeado de tantas provas de carinho e da presença amorosa de Deus. Todavia, pecaram, entorpeceram os corações, puseram em causa a presença de Deus… Conclusão: caíram mortos no deserto! E Paulo escreve, por duas vezes neste texto, para nossa advertência: «Estas coisas aconteceram para nos servir de exemplo» (1 Coríntios 10,6 e 11), acrescentando logo: «E foram escritas para nossa instrução» (1 Coríntios 10,11).
 7. O Salmo 103 é um grande canto ao amor de Deus, que dia-a-dia nos perdoa, nos cura, cuida de nós com carinho e misericórdia maternais. Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas do Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.
Temos meia Quaresma já andada.
E enquanto,
No caminho ou no campo,
Nos alegramos por ver a tua messe amadurar,
Também olhamos e vemos,
Cada vez com mais encanto,
Aquela árvore seca
A olhar para nós e a sangrar.
 
Árvore seca e comovida,
Toco seco a rebentar em flor,
É a tua Cruz, Senhor,
A irrigar de amor a nossa vida.
 
Ela lá está,
Sempre à nossa frente,
Plantada no chão árido e seco.
 
Mas, para nosso maior espanto e admiração,
Eis que a tua Cruz, Senhor, se levanta do chão,
E se planta no nosso coração.
 
Por tanto amor, Senhor,
Recebe a nossa gratidão,
Enche os nossos pés de prontidão,
As nossas mãos de paz,
Os nossos lábios de oração,
Os nossos gestos de perdão.
 
E caminha connosco
No que falta cumprir desta peregrinação.
Não fiques estéril. Não sejas como a figueira da parábola.
Vai em busca do que acreditas, daquilo que te faz ser feliz. Acredita em ti, primeiro, e vê, sente como é fácil amar.
Amar é dedicar atenção, cuidado, respeito e uma sabedoria que a experiência dos erros e do perdão constrói. Não se trata, pois, de um qualquer acaso, coincidência ou destino pré-escrito
 
 
 
 
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Aqui despi meu vestido de exílio
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro
Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra Poética III