sexta-feira, 20 de maio de 2016

Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento...
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será - porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes - por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha
sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa -
se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.
Maria do Rosário Pedreira

 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A linha imaginária

O pássaro levantou voo e foi pousar no ramo acima. Teceu uma linha imaginária que nunca encontrarás. A linha dos sonhos que nunca te mostrei, e vou traçando, como o pássaro. Todos os seus sonhos voavam acima do chão sem que ninguém os visse. Também o coração palpitava cada vez que pensava nele, como um passarinho trémulo no ramo que o abriga da tempestade. Toda a vida viveu de olhos abertos ao sonho, apenas o sol entrou.
Desafio RS nº 34 –  publicado em historiasem77palavras.blogspot.pt/
 
Com uma frase de Mia Couto, do seu livro
«Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra»
É esta:
«O homem que vive em espanto deixa portas abertas no sonho.»
Que história vos surge ao ler isto? Podem usar a frase ou não.
 
 
 
 
 

sábado, 14 de maio de 2016

A pintar os sonhos

Rolou para o chão. Como por encanto, desapareceu. Era o lápis mais bonito da coleção de lápis, e tinha que suceder logo isto. Uma desgraça! Suspirou. Olhou em redor, nada! De cor tão azul, tão linda, que apenas usava para pintar o céu. É no céu que moram os sonhos. Os dias passaram e do lápis nem sinal.
No dia de aniversário. 10 anos, quem diria! O lápis estava na mesa, para pintar os sonhos, de azul
 
RS 37 - o lápis caído no chão publicado no blogue historiasem77palabras.blogspot.pt/
1) O lápis rola para o chão.      2) Alguém o apanha e guarda.      3) Aquele lápis aparece mais tarde.
O que vos surge?
 
 
Celito Medeiros - Cafe on a Rainy Day
 
 
 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Quem errou, então?

Era teimosa. Mais depressa partia, mas não vergava. Agora parecia que o mundo se unira para a enfrentar. Tudo corria mal. Mas continuava convicta das suas certezas. Errados estavam eles. Um dia a razão deveria acordar e veriam quem afinal era mais insano. Estava exausta. E enquanto conduzia até casa, revia todos os procedimentos que adotara. Foi a navegar contra a corrente que todas as proezas se deram ao longo dos tempos. Abriu o email. Despedida. Lia-se…

Desafio 105 - Frase de Einstein - publicado no blogue da Margarida: http://77palavras.blogspot.pt/

Conhecem esta frase de Albert Einstein?
Não há maior demonstração de insanidade do que fazer a mesma coisa, da mesma forma, dia após dia, e esperar resultados diferentes.
Que história em 77 palavras vos sugere? participem também. É muito giro
 
 






 

sábado, 30 de abril de 2016

Vespertino

Era um hotel pequenino, ali para as proximidades da Basilica de Santa Maria Maior. Um estabelecimento familiar, modesto, explorado por uma família de italianos já com alguma idade. Simpáticos e prestáveis. Um local muito agradável para descansar depois de calcorrear vias e embebedar os olhos com tanta arte e tanto mármore de Carrara. Num fim de tarde que se anunciava chuvoso e pouco convidativo a outras aventuras fora de portas, encontrei uma publicação na língua nativa, displicentemente pousado num canto da receção. Pedi autorização para ler e fui folheando na tentativa de me concentrar na melódica língua e compreender o que lia. De repente toda eu se iluminou ao deparar-me com um poema do meu conterrâneo e mui querido Poeta esquecido nas folhas amareladas pelo tempo de um amante da poesia e deste luso pensador: 
Vespertino
E, tuttavia, è bello...
l’imbrunire.
La luce calante cade dal cielo vuoto
sulla morbida chioma
delle fronde
e sopra ciascuna foglia si diffonde.
Immobile, il paesaggio
appare addormentato
agli occhi di chi guarda.
La brezza porta il tempo
verso nessun destino.
E il rumor cittadino
fluttua nelle orecchie
distratte
di quelli che per le vie stanno andando
senza fretta
e come se stessero sognando
senza sognare...


Miguel Torga, Diário XIV

 

terça-feira, 26 de abril de 2016

Coisas

Ella regaba margaritas en el frondoso jardín, cuando ya sabía que tras la ventana él la observaba con un deseo bueno. Al rato sintió en su cuerpo una alegría que hacia muchos años había añorado, pero no sabía que al final se ejercería de un modo tan tremendamente mundano y casual. Por mucho tiempo prefirió olvidarse del mundo y descansar de todos los desencuentros de su juventud, que ya la estaba perdendo. 

 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Entre nós parece que fica sempre a dobra do lençol
enrolada para além da almofada que nos aconchega
e do tempo que termina no silêncio de uma garagem,
de uma interrupção, simplesmente termina.
E o abraço que troco noutro corpo tem o teu cheiro
a tua força, o teu calor e leva o amor com que te
vou amar sempre. Mesmo que outras bocas recebam
os beijos que guardo para ti. A voz que me mima é
sempre a tua voz, e a alegria de a ouvir perdura sempre
para além dela e do silêncio. Morrerei sufocada
pela saudade, sem que ninguém saiba que
também se pode morrer de saudade. Chamo
o teu nome baixinho e ninguém ouve, nem eu

mas quando voltares saberás que continuo a chamar por ti.

@maçadejunho


 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Capela Sistina

A Capela Sistina é um dos locais mais antigos e famosos do Vaticano. Grande obra prima da história assinada por Michelangelo que, em quatro anos, cobriu cerca de 680m² com cenas do Antigo Testamento. Lá estão a criação do homem, a expulsão do Jardim do Éden e o dilúvio.
Assista em “Uma Viagem pelos Museus do Vaticano” e conheça um pouco mais sobre este tesouro italiano e tantas outras obras marcantes da arte, recolhidas pelos Papas em 500 anos de história: http://ow.ly/10pnwD

Roma - Città eterna

domingo, 17 de abril de 2016

Este silêncio que dói tanto
Tanto quanto a ferida aberta no teu corpo.
Dói-me esta ferida que teimosamente guardo
talvez para te fazer companhia, em silêncio;
Talvez para te sentir sempre perto.

Se tocasses esta dor neste meu corpo perdido
sentirias o meu desabrochar de primavera
e as tuas dores passariam além deste mistério.
Além de todas as primaveras em que o meu corpo
Não encontrou o teu nesse tempo;

Diz-me das tuas dores, das de hoje e de todas
as que guardas de mim; diz-me das dores do mundo
Diz-me o que sabes desta dor, do balsamo que procuro.
Por entre as sombras da noite, aparece a escuridão
e nada mais. Lá onde te dói eu continuo a sentir.

@maçadejunho
 
 



 

sábado, 16 de abril de 2016

As fontes


Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,...
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o íntimo esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

@Sophia de Mello Breyner Andresen
in Poesia I, 1944.


https://www.youtube.com/watch?v=bZ_BoOlAXyk&feature=share
 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Abril

Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada ...
onde os ciganos passam a cantar.
Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
- onde a voz dos ciganos se perdia.

Eugénio de Andrade

 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.» Eduardo Galeano