quinta-feira, 18 de abril de 2013

Arribas

Havia um extenso areal e as ondas a beijar a praia
E tu a caminhar na areia, feliz como criança que eras
para dar de beber à saudade
mas não despiste o meu vestido de cambraia
nem seguraste as minhas mãos entre as tuas

Nesse pequeno paraíso de mar e céu
na calma dos dias travando uma batalha silenciosa
onde o invasor é interno de mistério carregado
e ela não é francesa nem tem beleza
tem ardor e um frescor arrebatado

Por entre majestosas arribas, vislumbrando a doçura
que a natureza contempla adormecendo um segredo
descalça, a sereia fugia por entre risos e beijos
nesse mar povoado de lendas encantado e pitoresco
serão também aí mutáveis as tuas paixões

Não me levaste a beijar as ondas nem molhei os pés no mar
nem fiquei adormecido nem carreguei de vencido caminho de servidão
à míngua de tanto silêncio travo mais uma batalha
perdida, interna e sofrida que terminará desfeita em ruína
quando o dia virar sombras e a noite escuridão

Foto:Mafaldinha






quarta-feira, 17 de abril de 2013

Naquele mar

Na praia da areia branca
nas ondas de uma paixão
no mar que não me escolheu
fez-se noite e em teu peito
esse calor esse grito apenas adormeceu

Talvez não seja o lugar
nem a nascente do rio
onde vou escutar o mar
e onde sentada suspiro
nos braços de outro luar

Na raíz de uma palavra
planto flores que te dou
despida do mundo abandono-me a ti
deixa-me ficar esta noite
para quando morrer sentir que vivi

Foto:Mafaldinha

domingo, 14 de abril de 2013



Pastel de nata

Passeando pelo virtual, tomei conhecimento de que decorre em Lisboa, por estes dias, um concurso do pastel de nata. Não dei importância ao assunto, mas fiquei a matutar. Pastel de nata também eu sei fazer, tenho até uma receita própria,  que não faço há largos meses.
Adapto tudo quanto é receita e quando me pedem, eu nunca sei muito bem as quantidades, pois para mim é sempre mais ou menos. Tenho-me educado um pouco com a publicação de algumas receitas aqui no blogue.
Embrenhada que ando com o Fernando Namora e com o Aquilino Ribeiro, por motivos vários e variados, leituras densas e pouco aconchegantes, dei comigo a fazer uma sobremesa rica e apetitosa neste domingo sorridente de sol e a pedir mimo. 
Não concorri, não ganhei nada, mas é um maná uma fatia desta deliciosa tarte com um café quentinho, neste dia que também é o dia mundial do café.

Ingredientes:
3 dl natas
6 gemas de ovo
120 gr de açucar
uma embalagem de massa folhada fresca, 
umas gotinhas de aroma de baunilha (opcional)
canela en pó, qb (para quem gostar)

Leva-se ao lume as natas e as gemas mexidas com o açucar, mexendo com regularidade com uma vara de arames, até fervilhar e começar a engrossar.
Numa tarteira coloca-se a massa folhada deixando ficar por baixo o papel em que vem enrolada, deita-se o preparado e vai ao forno pré-aquecido, a cerca de 200º, por cerca de 15 minutos.
Deixa-se arrefecer e polvilha-se com canela  a gosto.

Bom apetite!
Foto:Mafaldinha
Nas minhas andanças pelas histórias do volfrâmio (mineral tungsténio) e dos homens que pela incansável procura de terras de "promissão"  fizeram de Portugal um dos maiores produtores deste metal no sec XX, descobri a poesia de Fernando Namora, a qual me tem proporcionado uma agradável surpresa.

Nocturno
(...)
Noite...
(apetece-me repetir o teu nome)
alagaram a cidade com mistério
- que brutos, que brutos os deuses!,
sinto mãos viscosas, aranhiços
a bajularem-me os braços,
andam fantasmas à solta, pelas ruas,
ossos de uma brisa
de voz cava.

É noite.
Quem saberá distinguir
o teu e o meu grito,
a febre e o arrepio,
as carícias e os punhais?

Noite.
nesta rua onde me deslasso,
filósofo estremunhado,
há uma luz baça
que, ébria, tropeça
na calçada. ( As frias Madrugadas de Fernando Namora)

Foto:Mafaldinha



sábado, 13 de abril de 2013

Um tio tonto



O foi a Toronto e de tanta neve que via, resolveu andar de trenó. Mas como faria? Não era um sonho muito fácil de realizar …Tinha um tio um pouco tonto, com mão de marceneiro. De um toro de madeira velho, no torno aparelhou, serrou, esculpiu, cinzelou e finalmente uma pequena obra de arte. Perfeita não, alguns defeitos que nem noto. Parecia um rei sem trono.
Do restinho ainda deu para fazer um pião.
 Que saudades!



Toronto, Tó Tonto, Trono, Torno, Noto, Toro

Escrever um texto com 77 palavras, utilizando as palavras indicadas.

Publicado no Blogue:  http://www.77palavras.blogspot.com/




sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ao cair da noite

A noite cai sobre a minha rua
e esvai-se a última réstia de sol
tão ténue como a cambraia
tão simples como a sua vida
tão breve como um sopro

Nem as sombras choram
urdidas do negro da noite

nem as lágrimas serão pecado
para quem enterrou os pés no caminho
recolheste-te na sombra e ficou apenas
o teu perfume clandestino
no marulhar dessa praia de areia e sal

onde a ausência ensaia uma fuga
na casa quieta
Ao cair da noite

Foto:Mafaldinha





quarta-feira, 10 de abril de 2013


A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude).
Simone Weil

terça-feira, 9 de abril de 2013

Flor

Como se colhe uma flor
em tuas mãos
me acolheste
Enfeitaste a tua jarra
e lugar de destaque
lhe deste
que nem flor
acabada de abrir.
desabrochou
tão insegura e frágil
tombou
e a jarra rolou
em pedaços
E numa pétala suave
pisou
um suave aroma
soltou magoado
e em silêncio
chorou

Foto:internet




domingo, 7 de abril de 2013

Voar sem asas

Os dias crescem de novo
já as flores prometem voltar depressa
e o meu sorriso não se desfaz
nem quando o coração chora
pois vais precisar dele ainda
há chegares que não chegam nunca
nem os tesouros escondidos debaixo do sol
foram escritos pela mesma mão
há um impulso, uma verdade e uma ternura
que nunca a abandona
mesmo quando perde as asas
no momento em que se preparava para voar

Foto:Mafaldinha

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Inquietação

Na primavera flores. Eu gosto de flores, mas esta primavera demora, continua fria, chuvosa e triste. A minha imaginação adormeceu e aguarda que um sopro ou um beijo a avivem de novo. Eu que tanto me quero manter na luz, afastada da sombra que um eclipse de mim própria pode produzir. E ando assim à dias, ando pardacenta, acordo com as dores das árvores, apenas o tronco me sustenta de pé no chão. O meu espírito voa, lá fora por  horizontes que desconheço e procuro sem rumo certo. Apenas a inquietação e a serenidade, um ninho e um céu onde possa voar, inspiração e o vazio criador me bastariam, talvez!
Mas finalmente as tulipas começam a dar o ar da sua graça, na solidão dos ramos que as sustêm frágeis e breves passam pela vida cheias de cor e de beleza
E eu? Não, eu desta vez fico ...



Foto:Mafaldinha

terça-feira, 2 de abril de 2013

Certamente

São como a espuma das ondas
As tuas letras
Em cada poema um silvo de desejo
Que nada leva além do mar
Nem de amor louco pode apostar
Sem as palavras que encantam!
Belas de tanta ternura
Na voz dos amantes secretos
Nem as sílabas se repetem
Mas quando chegar ao cais
É lá que me encontras, amor!
Foto:Mafaldinha


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Rabiga em acção



Desafio nº39 
Em 77 palavras escrever um texto introduzindo a meio a frase: Afinal, era só um ovo de Páscoa

publicado no Blogue histórias em 77 palavras 
http://www.77palavras.blogspot.pt/

Havia migalhas por todo o lado e a formiga Rabiga na sua azáfama laboriosa ia empurrando um pedacito de encontro ao esconderijo, pelo carreirinho adiante. Afinal, era só um ovo de Páscoa! Há que aproveitar estes raios de sol que hoje aquecem o corpo e a alma confortada depois de tanta chuva, para repor as provisões, pensa ela toda animada. De repente um enorme obstáculo e o carreirinho desaparece. E daquele muro saía um cheirinho tão agradável….


Foto:internet