terça-feira, 18 de junho de 2013

Microconto

Crescera no meio do rebanho com a companhia do cão, o velho Restelo que conhecia desde que nascera, e a protecção divina dos céus. Calcorreava o paraíso nos montes que eram de esteva e feno no verão, onde nasciam granitos e pedras de gelo no inverno. 
Nunca ninguém lhe ensinara a magia de juntar letras para inventar palavras. Sabia defender-se do perigo de alcateias inteiras mas desconhecia o perigo do mundo. Desceu à cidade e perdeu-se nos seus braços. Forasteiro, moreno, de verbo fácil e comerciante reconhecido. Começou por lhe oferecer um lenço  bordado, lindo, cheio de cor e de flores que guardou durante toda a vida. Agora chora a sua perda.



Fotos: Mafaldinha



segunda-feira, 17 de junho de 2013

Quando no silêncio até as palavras são gritos
Deixa que se estilhasse esse som ensurdecedor
Pois o silêncio oportuno é mais eloquente que o discurso.


E música que não precisa de discurso 
para ser bela 
e fazer de um momento solitário 
um mimo repleto de sentimento


domingo, 16 de junho de 2013

Voando como um livro

Lá porque sou um livro aberto não serão precisas muitas páginas para ler. Serão tantas, quantas aquelas que vieres comigo escrever. Mesmo no silêncio nada fica por dizer, e nem a brisa do vento tomba as folhas por bordar. Lê-me, mas devagar, e deixa ser eu a anotar, as horas e o vagar. Há páginas que ficam em branco. Não é por falta de alma apenas porque não queremos manchar a pureza desse momento. Quando o deixo aberto, na penumbra de um sentir, fico à espera que me digas o que escrever a seguir. E se nem sempre surgem letras a expressar o sentimento dá-me um retrato de ti que guarde eternamente. Quero guardar uma obra, que faça sorrir quem a ler, tudo tem um começar tudo tem entardecer. Diz-me agora tu, do teu jeito, qual a página que guardamos, para daqui a muitos anos. Quero ler-te com os olhos macios como veludo e fechar-te no coração, com uma janela aberta de par em par, não quero perder-te ainda como vaga recordação. As folhas não as colorimos, nem a tua boca fresca e macia se abeirou para as pintar. Não quero deixá-las manchadas quando uma lágrima tombar. Podes chegar devagar e deixar-te amar, como um livro inteiro, posso sempre tomá-lo como um refugio e ao prazer mantê-lo em segredo. Jogando o jogo da liberdade e descansando depois como se descansa quando o livro é bom, voando sobre o infinito de ti.

Foto:internet

sábado, 15 de junho de 2013

Encantamento

Lisboa não é só Alfama, o Restelo ou a Mouraria
Toda ela cabe num estendal, de roupa branca na varanda
escondendo amores puídos, ou revelando outros martírios
Lisboa é o eléctrico que sobe a calçada
de encontro à madrugada dos amantes
Para na espuma do rio sonharem novos instantes
de encantamento e deslumbramento
Seja no cais das colunas seja no cais de Sodré
E nos braços que não de prata tombarem
formando uma liga  por fusão ou mesmo oxidação
Lisboa vai a Oriente, gaiata de chinela no pé
para nos jardins envoltos em mistério viver a vida que vida é
Brilha dourada pelo sol, vagarosa e lânguida
E se no céu escorrerem nuvens
são testemunhas silenciosas dos gritos das gaivotas





Fotos: internet

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Doença

Deixa-me sonhar nem que seja agora
Nem que amanhã acorde desiludida do mundo
deixa-me delirar
Aproveitando os graus febris do meu corpo
que teimam em permanecer
Não quero antibiótico se puder prolongar o prazer
E sonhar com os teus cuidados prazerosos
Sim esses que deixamos esquecidos
Num percurso surpreendente que se perdeu
porque a vida seguia e deixei de a encontrar
Agora o corpo dói, dói muito não sei se de amor se de doença
O médico diz que é doença, mas que sabe ele de amor?
E os remédios não curam o coração
Nem dão à vida a sabedoria doce e terna que guardo em mim
Mantenho os olhos fechados
E não vejo esta porção de alma renascer
morrerá à míngua de afeto
E a febre desaparecerá e o cansaço libertar-se-à
para dar lugar a mais trabalho, a mais sonhos e a mais tristeza
reflexo de um espelho partido
onde não te encontro
nem as contas escuras de teus olhos
se acendem na escuridão da noite
Foto:internet




quinta-feira, 13 de junho de 2013

Escuta-me

Escuta
pois não vou sequer pronunciar palavras
que perdem o significado depois de serem ditas
na vida há percursos surpreendentes
de alcançar
mas apenas aqueles que se deixam encontrar
como tu
Que me lês nas entrelinhas
e me decifras em cada gesto meu
não venhas
sempre que não puderes
adivinha-me apenas


Foto:internet

terça-feira, 11 de junho de 2013

Biografia

A minha biografia lê-se em mim
no dia que nasce
no sol que aquece
no vento que sopra no rosto
na brisa que empurra o mar,
é a minha nudez envolta no pensamento
é o meu olhar pousado num breve momento
é a vontade sufocada pelo sonho,
é não ter cartão de identidade
e deixar o eu perdido nos afetos
não trazer comigo o que buscava
esquecido que fica do mundo...
Tudo o que chega a mim
me acrescenta e emerge de dentro
qual fermento levedado na masseira!
Tenho uma aliança firmada
com as coisas que me embelezam
música, livros e amigos verdadeiros me bastam
e depois, depois é o amor de mãe e de mulher
que colho em cada pétala que pousa nas minhas mãos
e num sopro suave e quieto, abraço e protejo.

Foto:Mafaldinha





sábado, 8 de junho de 2013

Ausente de mim

Sair de mim
É esvaziar o sótão
das ideias malucas
que são o que não são
Sim vou sair
Sair implica encontrar
um porto de abrigo
um regaço aberto
um pedaço de céu
tecido de estrelas
há beira mar
por mim
um jardim plantado para mim
mesmo por ti
é encontrar outro eu
junto de ti
migrado no mais profundo de mim
ausente que esteja do mundo
porque se encontrou
e ficar junto a ti
para nascer de novo
como o dia

Foto:internet





sexta-feira, 7 de junho de 2013

Momentos

Há beijos que me recebem
e não saem de teus lábios
há palavras que nos ferem
e nunca foram ditas
há abraços que nos esperam
e não chegam até nós
há momentos ...
e apenas flores me bastariam
já foram colhidas, não por mim
há vidas que não merecem
o caminho percorrido
nem o corpo que as suportam
Nem eu

Foto:Mafaldinha


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Nada

Há tanto mar sem sereias
e tanto céu sem estrelas
tanta primavera sem flores
e eu sem ti
para acordar um dia
para além de mim
alguém para fugir para fora de mim

Foto:Mafaldinha


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Desapego

Vive de sons e de notas de musica
escritas e tocadas ou apenas pensadas
como se uma partitura fosse a respiração

Dá encanto à tristeza e impulsiona alegria
amadurece os sentidos 
e serve de alimento a alma

Uma raiz para lá do chão
um poema que canta
uma melodia que sai de dentro de mim

Uma casa de paredes meias
com o doce jubilo dos amantes
numa cama de partituras

Porque o amor são todas as letras
quando não há palavras
e todas as músicas do silêncio

Ainda que falasses a língua dos homens
ou estivesses escrito num livro raro
sempre te encontraria porque me doei por inteiro





domingo, 2 de junho de 2013

Bolo de banana

Há receitas que chegam por mãos amigas e esta foi o caso. Uma amiga queixando-se que a receita não ficava bem e que haveria alguma coisa que não ligava, etc e tal. Pedi-lha e comprometi-me a explicar o que havia na receita que não desse os resultados pretendidos. Não vi nada e hoje experimentei-a. Acho que ficou um bolo muito fofo, de paladar muito agradável e uma boa sugestão para fazermos um bolo diferente do habitual.

Ingredientes:
120 gr de manteiga amolecida
120 gr de açucar amarelo
3 ovos
220 gr de farinha
uma colher chá de fermento
uma colher de café de bicarbonato de sódio
4 bananas bem maduras 
sumo de um limão
uma colher de chá de canela em pó

Amassa-se com um garfo as bananas, regam-se com o sumo de limão, e reserva-se.
Numa taça mistura-se a manteiga com o açucar até obter um creme e juntam-se os ovos inteiros, um a um, batendo sempre. Peneira-se a farinha juntamente com o fermento, o bicarbonato e por fim junta-se o puré da banana e a canela.
Vai ao forno pré-aquecido a 180º em forma de bolo inglês barrada com manteiga e polvilhada. 
Na cozedura diminui o calor para cerca de 170º e cozeu durante 50 minutos. 


Fotos:Mafaldinha