segunda-feira, 21 de março de 2016

Dia da POESIA

Dia da poesia, da beleza das palavras, de sorrisos em forma de versos. Dedicatória branca, escrita ou inscrita no branco do lençol de uma cama asséptica. Dia de escrever nem mais nem menos. Apenas o sentido do dia que corre inseguro e doente, fala de poesia. Sem ti a poesia não tem sentido. Dia de te amar tanto a ti poesia.
@ag

«Tratado geral das grandezas do ínfimo
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades....
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.»

Manoel de Barros.






«Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde...
na alma de névoa.

A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da ideia.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.
Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?» Federico Garcia Lorca


«Intimidade
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,...
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.» José Saramago



«Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo....
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.»
Mia Couto

«O meu amor não cabe num poema ― há coisas assim,
que não s...e rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
os quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto ―
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura a mão que protege a chama que estremece.
O meu amor não se deixa dizer ― é um formigueiro
que acode aos lábios com a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente os segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.
O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome ― é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. nenhum poema
podia ser o chão a sua casa.» Maria do Rosário Pedreira




 


«Poema ao Desejo
Empurra a tua espada...
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo

Que eu sinta de ti
a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins

Deixa depois que a tua boca
desça
e me contorne as pernas com doçura

Ó meu amor a tua língua
prende
aquilo que desprende de loucura»

Maria Teresa Horta

sábado, 19 de março de 2016

Homenagem no dia do Pai


Esta manhã o sol atravessou de repente
para o outro lado da rua - são tão sombrias

as casas quando delas se perde o nome de
alguém, tão escuros os corações dos que
ficam lá dentro para habitar a dor
M. Rosário Pedreira, in Poesia Reunida



https://youtu.be/ELGi510k4Ho

 
Vou tecendo os dias enquanto espero que tu chegues
veloz e alegre. Mas não chegas. Escuto apenas silêncio.
E o silêncio não me sossega. Não me diz que o novelo dos dias 
vai crescendo enquanto seguras o fio que a primavera vem tecer.
Nem me diz das tuas dores, nem das tuas vitórias. Esconde as palavras
por que eu espero. E a espera é o pior do silêncio.

E oiço a voz dele, do silêncio, que mandaste ter comigo. E ele não me diz que estás a olhar as flores e a sorrir, nem me diz que te enfureceste com o mundo e com o frio deste inverno que teima em ficar. E eu queria que o mundo te provocasse, para mandares embora o silêncio e trazeres de novo as palavras que nos unem. E voltar de novo a ouvir o meu nome.
@maçadejunho
 

quinta-feira, 17 de março de 2016

No silêncio

Soubesse eu obedecer-te.
E de silêncio polvilhar a noite
Não quero ficar calada neste momento
Apenas lembrar todo o contentamento
de brincar contigo debaixo da macieira florida
Para te amar de novo, como os frutos que hão-de nascer.
@maçadejunho

 

terça-feira, 15 de março de 2016

Na escola

Não mais, nem
menos. Quatro letrinhas apenas,
a rir.
Podem sentir, sorrir, dormir.

O bibe da Sara é rosa
botões soltos redondinhos
doce flor ao sol,
Quando passeio neste recreio.

Já sei ler
Escrever, também contar, saltar quando brincar
Só não sei
desenhar nuvens brancas.
Já sei o A o B até o Z
Zumbido, postigo, formigo, lagarto pintado.
Olha bem para mim mãe.

Oiço a tua voz que me toca
Quanto encanto, entoando solene neste coração.

RS 35 - desafio publicado em www.77palavras.blogsopt.com
Uma frase de 4 letras seguida por outra com mais letras












 

quarta-feira, 9 de março de 2016

Ó Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher


Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos ...
[e quedos.
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.



Fernando Namora, in Mar de Sargaços.

 

terça-feira, 8 de março de 2016

Dia da Mulher é hoje e ontem e amanhã

POEMA MELANCÓLICO
A NÃO SEI QUE MULHER
Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram; ...
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

in, Diário VII, Miguel Torga


domingo, 6 de março de 2016

Quase primavera

Tenho saudades da primavera. Mas hoje o dia esteve "quase primavera". Agora o sol já se escondeu e ficou frio.
Tenho saudades da minha jardinagem. Dos meus vasos, que estão lá fora na intempérie e sem cuidados desde o outono. O tempo é escasso. E eles vão ficando em modo de "espera". Mas é bonito ver que as orquídeas rebentam e desde o Natal que há sempre um vaso florido. O narciso do cantinho, já floriu e já está a morrer e quase nem o vi. As cucas como a minha mãe lhes chama estão numa profusão de amarelo. Enfim, deve ser o Espirito Santo que na sua infinita misericórdia (quaresmal) vai zelando pela minha floricultura. Mas preciso urgentemente por as mãos na terra e tratar de fazer a sementeira.
O que não falta hoje, que é domingo, é o nosso bolinho saboroso e que dá para a semana toda nos deliciarmos com um mimo.
Colocarei as fotos quando tiver tudo pronto, para já fica a receita:

Bolo de maçã:
4 ovos grandes
250 gr. açúcar
100ml leite
150 gr manteiga
1colher chá de fermento
300 gr farinha
4 maças grandes (usei reinetas)

Barre uma forma com manteiga e polvilhe com açúcar.
Descasque e corte as maçãs ás fatias finas, e regue-as com sumo de limão para não ficarem escuras, e forre a forma com as fatias de maçã.

Bata as gemas com o açúcar até obter um creme fofo, em seguida adicione a manteiga derretida e o leite e continue a bater.

Misture a farinha peneirada com o fermento e mexa com uma colher. Bata as claras em castelo e envolva na massa.
Coloque uma camada de massa na forma.
Coloque em seguida uma camada de maçã cortada em fatias e nova camada de massa.
Leve ao forno a 180ºC durante + ou - 40 minutos, ou até ficar cozido, faça o teste do palito para ter a certeza.

Retire do forno, deixe arrefecer um pouco, passe uma faca, com cuidado, à volta da forma e desenforme.
@Maça de junho
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Torga

Coimbra, 28 de Fevereiro de 1981 - Há ocasiões em que os sentimentos valem como argumentos. E calei-o assim: sabia perfeitamente que a liberdade não é a mola real do homem. Que outras forças mais poderosas o solicitam a todo o instante. O fanatismo religioso, os mecanismos económicos ou as paixões políticas, por exemplo. Que não ignorava a que extremos de servidão podem chegar nações inteiras, cegas pela fé ou rendidas a qualquer ideologia. Que a ideia de que a liberdade é uma força incoercível tem muito de romântico. Simplesmente acontecia que tal romantismo, mesmo exautorado, nunca deixou de fazer frente à opressão, ate quando tudo parece perdido. E é essa vontade insofrível de quebrar todas as cadeias que desde rapaz sinto também no âmago da alma, embora tristemente convencido pela dura experiência da vida que este baixo mundo de ilusões não passa de uma redonda clausura.

Miguel Torga, Diário XIII




https://www.youtu.be%2FiiAylleR64Y&h=DAQHlR0-1&s=1
 

sexta-feira, 4 de março de 2016

Amar, perdoar e acreditar

Quem for mal amado, ama mal. Se não é amado, tem mais bloqueios, maiores fragilidades em amar muito e amar bem.
Quem for bem amado, pode amar bem. Tem mais possibilidade de ser mais amado e amar sempre mais e melhor.
 
Purgatório não é um terceiro lugar. Purgatório é apenas um estado, mais ou menos passageiro, conforme as feridas que transporta e conforme a capacidade de as curar.
 
Quando vou à festa se não participo plenamente na festa, se há algo que ainda nºao está resolvido, não vou participar plenamente na festa. A capacidade de ultrapassar este estado de purgatório, de sarar as feridas que não deixam que a festa entre em mim, quanto maior, mais rapidamente me vai curar e deixar entrar no Reino dos Céus.
Não é Deus quem no tira do purgatório. Somos nós quem devemos fazer o caminho para sair dele.
Somos nós quem se deve exercitar no sentido do amor, e assim sabermos ser felizes e integrados neste reino onde todos cabem, e onde todos são verdadeiramente amados.
 
Também a Páscoa é a passagem para esse reino onde acreditamos ser felizes.
É a passagem pela redenção de sermos novos, de perdoar sempre e renascer de novo.
 
@Maçadejunho